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Codinome “VIC”, empresa fantasma e silêncio conveniente: Operação Overclean encosta no mandato de Vicentinho Júnior

  • Foto do escritor: Flávio Guimarães
    Flávio Guimarães
  • 13 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura
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Em Brasília, quando o dinheiro pinga todo mês, sem atraso, sem contrato visível e sem atividade aparente, não costuma ser salário. A Polícia Federal parece ter chegado exatamente a essa conclusão ao cruzar planilhas, transferências bancárias e empresas que existem mais no papel do que na vida real. O resultado atende pelo codinome “VIC”.

A Operação Overclean, que começou prometendo investigar fraudes em emendas parlamentares, agora ameaça revelar o que muitos fingiam não ver: o uso do mandato como porta de entrada para esquemas bem lubrificados de repasse financeiro. No centro do novo capítulo está o deputado federal Vicentinho Júnior (PP), citado em documentos apreendidos pela PF como possível destinatário final de valores que passaram por uma empresa registrada em nome de sua esposa.

Entre março de 2023 e novembro de 2024, a GMD Borba Distribuidora Eireli recebeu depósitos mensais de R$ 20 mil. Todo mês. Religiosamente. Como uma assinatura invisível. O dinheiro vinha da BRA Teles LTDA classificada pelos investigadores como empresa de fachada, criada pelos irmãos Alex e Fábio Parente para movimentar recursos de origem ilícita. Coincidência? Só para quem ainda acredita em Papai Noel político.

As transferências não surgiram do nada. Elas batem, centavo por centavo, com uma planilha apreendida pela Polícia Federal em dezembro de 2024, tratada internamente como o “controle financeiro” do esquema. Lá, os repasses aparecem associados ao codinome “VIC”. Três letras. Nenhuma sutileza. Para a PF, a legenda não exige esforço de interpretação — exige explicações públicas.

A soma não é pequena: R$ 420 mil em dois anos. Deste total, R$ 260 mil teriam saído diretamente da empresa de fachada. O restante aparece pulverizado entre outros remetentes que orbitam o mesmo ecossistema de interesses, contratos e emendas. Um verdadeiro consórcio informal de conveniências.

Quando a Polícia Federal decidiu visitar o endereço informado como sede da GMD Borba Distribuidora, encontrou algo bastante comum em escândalos políticos: nada. Nenhuma distribuidora em funcionamento, nenhuma movimentação comercial, nenhum sinal de atividade compatível com os valores recebidos. Apenas relatos de que “um dia já funcionou ali”, há cerca de dois anos — curiosamente, antes do dinheiro começar a pingar.

Para os investigadores, o roteiro é conhecido: empresa inativa, repasses regulares, intermediário familiar e beneficiário final com mandato. Um clássico da literatura policial, frequentemente encenado no Congresso.

E diante de tudo isso, o deputado optou pelo caminho mais tradicional quando o cerco aperta: o silêncio. Procurado para se manifestar, Vicentinho Júnior não respondeu. Nos bastidores, o silêncio costuma ser tratado como estratégia. Na política, muitas vezes soa como confissão em câmera lenta.

Deflagrada em dezembro, a Operação Overclean expôs um esquema robusto de corrupção envolvendo emendas parlamentares, contratos do Dnocs e prefeituras, especialmente na Bahia. Obras superfaturadas, serviços que nunca saíram do papel e empresas usadas como caixas eletrônicos do poder formam o cardápio do inquérito.

Planilhas apreendidas listam mais de 100 nomes e codinomes, desmontando o discurso de que se trata de “casos isolados”. O que aparece é um sistema. Organizado. Persistente. Protegido por mandatos.

Entre os personagens está José Marcos de Moura, o “Rei do Lixo”, preso na fase inicial e apontado como operador político do esquema. Na casa dele, a PF encontrou uma escritura vinculada ao deputado Elmar Nascimento (União Brasil-BA), que nega irregularidades. Também segue sob investigação o deputado Félix Mendonça Júnior (PDT-BA), citado como parte do núcleo político responsável pela articulação das emendas.

A cada nova fase da Overclean, fica mais difícil sustentar o discurso de surpresa. O que se vê é a repetição de um modelo: dinheiro público, empresas fantasmas, codinomes ridiculamente óbvios e um Congresso que insiste em fingir espanto quando a Polícia Federal bate à porta.

O problema para alguns mandatos é que, desta vez, a planilha fala. E ela fala alto.

 
 
 

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