Dorinha Seabra e a Fantasia da Autossuficiência Política
- SILENE BORGES

- 8 de jan.
- 2 min de leitura

Há candidatos que disputam o poder. Outros disputam a própria biografia. Dorinha Seabra (UB) decidiu fazer as duas coisas ao mesmo tempo — e com uma convicção tão descolada da realidade que beira a ficção científica.
Na pré-campanha ao governo do Tocantins, a senadora reaparece prometendo diálogo, escuta e articulação. Um discurso quase comovente, não fosse o detalhe inconveniente: ninguém esqueceu como Dorinha sempre tratou o diálogo quando estava confortável no cargo. Deputados que hoje são cortejados já experimentaram, na prática, sua noção de “interlocução”: silêncio, portas fechadas e intermináveis chás de cadeira em Brasília. O gabinete funcionava mais como bunker do que como espaço político.
Não surpreende, portanto, que os deputados insistam em rejeitar seu nome. Não se trata de intriga, nem de disputa ideológica. Trata-se de convivência política. Dorinha colhe agora o que plantou com zelo: isolamento, desconfiança e resistência. Pontes não queimam sozinhas — alguém precisa atear o fogo.
Mas o ponto alto dessa pré-candidatura talvez seja o surto de autogeração política. Dorinha passou a se apresentar como se tivesse brotado do chão, eleita por mérito próprio, sem padrinhos, sem alianças, sem contexto. Uma espécie de fenômeno sobrenatural do sistema eleitoral.
Convém lembrar os fatos, já que a memória parece falhar seletivamente. Dorinha só virou deputada federal porque foi impulsionada pela popularidade de Marcelo Miranda, que naquele momento era o eixo central da política estadual. Sem esse empurrão, sua trajetória teria sido, no mínimo, bem menos exuberante.
E quando decidiu disputar o Senado, a história se repetiu em escala ainda maior. Se não fosse Wanderlei Barbosa, que literalmente a carregou nas costas durante toda a campanha — oferecendo palanque, estrutura, capilaridade e voto —, o desfecho eleitoral dificilmente teria sido o mesmo. Negar isso não é estratégia política; é reescrever a história com caneta de arrogância.
Mesmo assim, Dorinha insiste em dizer que “fez tudo sozinha”. O egocentrismo é tamanho que a soberba já compromete o raciocínio político básico. O áudio vazado, no qual ela demonstra paixão apenas pela própria candidatura e desprezo pelas demais, foi apenas a confirmação sonora de algo que os bastidores já sabiam: não existe projeto coletivo, existe projeto pessoal.
E como se não bastasse o isolamento político e o narcisismo institucional, há os fantasmas que a pré-campanha tenta empurrar para fora do enquadramento. Dorinha responde a processos envolvendo licitações irregulares da época em que comandou a Secretaria de Educação. Enquanto discursa sobre bilhões e responsabilidade fiscal em Brasília, precisa explicar como os recursos foram geridos quando passaram por suas mãos no Tocantins.
O retrato é constrangedor: uma candidata politicamente rejeitada, institucionalmente isolada, historicamente ingrata e convicta de que o próprio espelho basta como base de apoio. Agora, tenta convencer o eleitor de que sempre foi democrática, acessível e agregadora. A pergunta não é se o discurso cola — é quem ainda está disposto a fingir que não vê.
O Tocantins precisa de liderança com humildade, memória e capacidade de articulação real — não de alguém que confunde poder com autossuficiência e alianças com descartáveis. A política, diferente da memória seletiva, não perdoa soberba. E a conta costuma chegar antes da posse.












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