Irajá Abreu, o lulista deslocado, e o caminho quase inevitável rumo ao PSB
- FLÁVIO GUIMARÃES

- há 6 dias
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A política às vezes parece roteiro de comédia daquelas de humor negro. Ronaldo Caiado entra no PSD, o partido muda de humor, muda de discurso, muda de cheiro… e Irajá Abreu, lulista assumido, fica parado no meio da sala tentando entender em que momento virou intruso.
O senador acordou no mesmo partido, mas claramente em outro ambiente. O PSD agora flerta com oposição, ensaia discurso presidencial e ensina seus filiados a falar “independência” com cara de quem quer distância do Planalto.
Só esqueceram de avisar Irajá Abreu.
Porque todo mundo sabe até o cafezinho do Congresso sabe que Irajá é lulista declarado, sem modo avião, sem versão “light” e sem pedido de desculpas. Sempre foi. Nunca fingiu. E exatamente por isso virou o problema da vez.
Nos bastidores, o clima é de constrangimento com pitadas de deboche: “O PSD quer virar oposição, mas tem um senador que insiste em ser governo.”
A situação chegou naquele ponto clássico da política brasileira em que ninguém briga oficialmente, mas todo mundo torce o nariz. O partido muda de rumo, o senador mantém convicção, e o casamento começa a feder.
E é aí que entra o detalhe que ninguém assume em público mas que corre solto nos corredores: Irajá Abreu já inclina claramente para o PSB.
Não é boato solto. É comentário recorrente. Daqueles que surgem sempre depois do “isso fica entre nós”.
O PSB, convenientemente, virou o porto seguro do lulismo organizado. Base declarada do governo Lula, casa do vice-presidente Geraldo Alckmin e, agora, com diretório estadual cuidadosamente alinhado ao grupo de Irajá.
Coincidência? Só para quem ainda acredita em Papai Noel político.
Enquanto o PSD tenta decidir se quer ser governo, oposição ou influencer eleitoral, o PSB oferece algo raro: coerência. Lá, ninguém acorda de mau humor ideológico. Ninguém resolve virar anti-Lula depois do almoço.
Nos bastidores, a ironia é afiada: “O Irajá não está saindo do PSD… o PSD é que está expulsando ele lentamente.”
E de forma elegante, diga-se. Sem carta, sem briga, sem nota pública. Apenas aquele empurrão silencioso que a política aplica quando o filiado começa a atrapalhar o projeto nacional.
Hoje, Irajá Abreu está encurralado, olhando para o PSB como quem vê a saída de emergência piscando em vermelho. Ficar no PSD virou exercício diário de ginástica discursiva. Sair começa a parecer autopreservação.
E enquanto o senador tenta manter postura institucional, o partido nacional já não faz o menor esforço para esconder o flerte com Caiado.
Resultado: o lulista virou corpo estranho. O coerente virou problema. E o aliado fiel virou incômodo.
A ironia final é cruel: Irajá Abreu não mudou absolutamente nada mas tudo ao redor dele mudou.
Agora, o PSB surge como destino quase natural. Não por oportunismo, mas por sobrevivência política. Afinal, é difícil continuar num partido que parece pedir desculpa toda vez que alguém menciona o nome de Lula.
No ritmo atual, a pergunta deixou de ser “se” e passou a ser “quando”.
Porque dentro do novo PSD, lulista não é mais tendência. É exceção. E exceção, na política, raramente dura.












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