O Imbróglio Tocantinense: a sucessão que divide aliados e paralisa o Estado
- SILENE BORGES

- 26 de jan.
- 3 min de leitura

Enquanto o Brasil começa a organizar o tabuleiro eleitoral de 2026, o Tocantins vive um cenário político incomum. Em vez de uma corrida aberta pelo Palácio Araguaia, o que se observa é um ambiente travado por disputas internas, negociações silenciosas e uma base governista rachada quanto ao próprio futuro.
A sucessão estadual deixou de ser debate público e passou a ser resolvida — ou empurrada — para dentro dos gabinetes. No centro do impasse, dois pré-candidatos do mesmo campo político, aliados diretos do governador Wanderlei Barbosa, disputam espaço não nas ruas, mas nos bastidores.
Dois nomes, uma vaga e nenhuma definição
De um lado está a senadora Maria Auxiliadora “Dorinha” Seabra Rezende (União Brasil), parlamentar de projeção nacional, trânsito consolidado em Brasília e presença frequente nas pesquisas iniciais — ainda não registradas de intenção de voto.
Do outro, o presidente da Assembleia Legislativa, deputado Amélio Cayres (Republicanos), figura histórica do Legislativo tocantinense, que sustenta sua pré-candidatura com o apoio explícito de deputados estaduais, prefeitos e lideranças regionais.
No meio desse embate está o governador Wanderlei Barbosa, que, após o turbulento retorno ao cargo no final de 2025, tornou-se o árbitro da sucessão. Seu grupo político formado por Republicanos, PL e União Brasil precisa convergir para um nome, mas a decisão segue sendo adiada.
Enquanto o senador Eduardo Gomes (PL), um dos principais líderes da aliança, já declarou apoio à pré-campanha de Dorinha, a base republicana trabalha abertamente por Amélio Cayres o mesmo parlamentar que, nos momentos mais críticos da crise política, atuou diretamente para barrar pedidos de impeachment contra o governador.
Lealdade como capital político
Em recente entrevista, Amélio Cayres deixou clara sua estratégia: paciência pública e força interna.
“A pré-candidatura nunca saiu. Eu nunca disse que não sou candidato. Estou apenas aguardando o diálogo com o governador Wanderlei. Eu poderei ser qualquer coisa, inclusive nada.”
A fala traduz o estilo que lhe rendeu o apelido de “sereno” nos corredores do poder característica que, ironicamente, hoje se transforma em moeda política. Nos bastidores, aliados questionam: a lealdade demonstrada no passado será retribuída agora?
A candidatura forte nas pesquisas, frágil nos bastidores
Apesar dos números favoráveis, a pré-candidatura da senadora Dorinha enfrenta resistência interna. Analistas políticos avaliam que, embora robusta eleitoralmente, sua articulação dentro da máquina governista ainda carece de musculatura.
Enquanto Amélio constrói base sólida no Estado, Dorinha mantém foco institucional e nacional o que, para aliados, gera um vácuo político local. Sua postura pública, marcada por cobranças e queixas sobre indefinições, tem sido interpretada por parte do grupo como um erro estratégico.
Em vez de consolidar autoridade, a narrativa de insatisfação abre espaço para que Amélio se apresente como a alternativa da estabilidade, da lealdade e da “paz interna” do grupo.
E, nesse vácuo, outros nomes começam discretamente a circular.
O Senado como tabuleiro paralelo
A disputa pelo governo impacta diretamente a eleição ao Senado. O senador Eduardo Gomes, que buscará a reeleição, precisa de uma chapa majoritária forte para sustentar seu projeto político.
A eventual candidatura de Dorinha fortaleceria sua estratégia. Já a escolha por Amélio Cayres exigiria uma reorganização completa do arranjo político.
Nos bastidores, a pergunta recorrente é direta: até onde vai o poder de decisão de Eduardo Gomes e até onde o governador está disposto a ceder?
Enquanto isso, figuras como o senador Irajá Abreu e o ex-governador interino Laurez Moreira observam o cenário à distância, atentos à possibilidade de que a fragmentação governista abra espaço para uma terceira via.
Conclusão: uma sucessão movida pelo passado, não pelo futuro
A sucessão tocantinense não gira em torno de projetos de Estado, mas de lealdades acumuladas, dívidas políticas e equilíbrio de forças internas.
A serenidade de Amélio Cayres, que um dia protegeu o governo, hoje se converte em argumento político. Já a força nacional de Dorinha não se sustenta, sozinha, sem o aval do núcleo duro do poder estadual.
A definição não acontecerá nas ruas, nem nas urnas. Ela será tomada em uma reunião fechada entre Wanderlei Barbosa, Eduardo Gomes e as cúpulas partidárias.
Até lá, o Tocantins permanece em um limbo político: dois pré-candidatos do mesmo grupo, uma base dividida, alianças tensionadas e um eleitorado que assiste de longe, sem saber quem, afinal, será o escolhido.
A única certeza é que, quando a decisão vier, haverá vencedores, perdedores e cicatrizes profundas dentro da aliança que hoje governa o Estado.












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