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O Peso da Coroa: Como o Poder Redefine, Unifica e Destrói Laços

  • Foto do escritor: SILENE BORGES
    SILENE BORGES
  • 6 de out. de 2025
  • 2 min de leitura


Há algo de profundamente revelador na forma como o poder age sobre o ser humano. Ele não apenas muda as circunstâncias ao redor de quem o detém — ele desnuda, sem filtros, aquilo que sempre esteve latente.

Nos últimos tempos, o governo Laurez Moreira tem demonstrado um súbito esfriamento nos canais de diálogo com a imprensa e com interlocutores que, até pouco tempo atrás, circulavam livremente entre reuniões e telefonemas. A pergunta que surge é inevitável: o que acontece com o homem quando o poder o consagra? E por que, tantas vezes, ele escolhe o caminho do afastamento e da desconfiança, em vez de consolidar os laços que o trouxeram até ali?

A resposta é desconfortável, mas necessária: o poder não muda o caráter — apenas o revela. E, nesse processo, reescreve com brutalidade o mapa das relações humanas.

O poder age como um solvente de lealdades antigas e um catalisador de novas conveniências. Aquele político acessível, aberto a ouvir e conversar, de repente se converte numa figura distante. O pré-candidato que compartilhava cafés e confidências dá lugar ao gestor cercado por barreiras, assessores e protocolos. As antigas relações profissionais, mesmo as mais respeitosas, passam a ser vistas como ameaças potenciais — algo a ser evitado, apagado, esquecido.

Esse comportamento vai além de uma estratégia de comunicação. É uma transformação profunda na forma de se relacionar com o outro. O poder impõe uma lógica perversa, que se desdobra em três movimentos claros:

1. A substituição da confiança pela utilidade.Amigos e parceiros que ofereciam críticas honestas tornam-se incômodos. Em seu lugar, surgem vozes obedientes, incapazes de contestar. O círculo se fecha, e o governante passa a ouvir apenas o eco da própria vontade.

2. A paranóia da contaminação.Tudo o que vem de fora é visto como risco. O jornalista antes respeitado torna-se uma ameaça. A pergunta legítima é interpretada como armadilha. O diálogo cede espaço ao controle e ao silêncio.

3. A ilusão da união.O poder também une — mas une o que é conveniente. Forma-se uma “família palaciana”, um grupo coeso enquanto os ventos sopram a favor. Essa lealdade, porém, é condicional e frágil: dissolve-se na primeira crise.

Diante disso, cabe refletir: o poder destrói a amizade e o respeito?Talvez não. Mas os coloca à prova. Laços frágeis, sustentados por interesse, se desintegram. Já os vínculos sinceros sobrevivem — ainda que precisem ser colocados em espera, pois a verdade é incômoda para quem se vê cercado de bajulação.

No final das contas, a grande vítima dessa transformação não é o jornalista que perde o acesso nem o aliado que deixa de ser ouvido.A verdadeira vítima é o próprio detentor do poder.

Ao permitir que a função destrua seus vínculos de respeito e afaste os amigos verdadeiros, ele se condena à mais cruel das solidões: a solidão dourada do trono. E quando um líder passa a viver cercado apenas por ecos — sem ouvir o mundo real —, ele já começou a perder o elo com a verdade. E quem perde o elo com a verdade, cedo ou tarde, perde também o direito de liderar.

 
 
 

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