Opinião - Voto Além do Curral: a Autonomia Crescente do Eleitor no Tocantins
- SILENE BORGES

- há 4 dias
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A política no Tocantins, estado jovem e de intensa dinâmica eleitoral, é frequentemente marcada por um paradoxo: a persistente força das alianças municipais contrasta com a crescente autonomia e o notável desencanto do eleitorado. Historicamente, a eleição de candidatos a cargos majoritários como governador e senador dependeu, de forma decisiva, da capacidade de articulação dos líderes locais, que atuavam como “cabos eleitorais” orgânicos, capazes de transferir votos em bloco. Contudo, a percepção de que essa influência se traduz automaticamente em vitória está em colapso, sinalizando um amadurecimento político que redefine o jogo eleitoral.
A força e o limite das alianças municipais
A estrutura política tocantinense ainda se apoia, em grande parte, na lógica do chamado “coronelismo moderno”, em que prefeitos, ex-prefeitos e vereadores exercem forte influência sobre bases eleitorais locais. Para um candidato majoritário, o apoio dessas lideranças continua sendo relevante, pois garante capilaridade à campanha, acesso a estruturas logísticas e, tradicionalmente, a promessa de votos fiéis.
Um exemplo recente dessa articulação foi o desempenho de partidos ligados ao Executivo estadual nas eleições municipais de 2024. O partido do atual governador demonstrou força ao eleger um número expressivo de prefeitos, o que, à primeira vista, fortalece sua base para a disputa majoritária de 2026. No entanto, esse movimento não se confirmou nos dois maiores colégios eleitorais do estado.
Em Palmas, a candidata Janad Valcari contou com apoio intenso de lideranças de peso, como o governador Wanderlei Barbosa e dois senadores da República, mas foi derrotada por Eduardo Siqueira Campos. Em Araguaína, cenário semelhante se repetiu: Wagner Rodrigues foi reeleito, contrariando o candidato apoiado pelo Palácio Araguaia. Ou seja, os maiores colégios eleitorais e também outros municípios não se deixaram persuadir apenas pela força dos palanques.
Fica evidente que uma ampla rede de apoio municipal é vital para a visibilidade e a estrutura das campanhas, mas já não representa garantia de vitória. As eleições recentes mostram que a simples declaração de apoio de uma liderança local não assegura mais a obediência eleitoral da população. Inserido em um contexto de intensa judicialização e instabilidade política, o eleitor tocantinense desenvolveu um senso crítico que relativiza a força do chamado “curral eleitoral”.
O eleitor amadurecido e a busca por consistência
A mudança no comportamento do eleitorado é o fator mais disruptivo do atual cenário político tocantinense. O voto deixou de ser apenas moeda de troca ou expressão de lealdade automática a grupos locais. Análises recentes indicam que o eleitor amadureceu e que a escolha é cada vez menos guiada pela força da máquina partidária.
O eleitor busca identificação com o candidato, afinidade com propostas e empatia. Não há mais espaço para campanhas baseadas exclusivamente em agendas engessadas, discursos decorados e posturas distantes da população.
O novo eleitor exige consistência e legado. A pergunta central nas urnas deixou de ser “o que você promete?” e passou a ser “o que você já fez quando teve oportunidade?”. Vence quem demonstra:
Capacidade de leitura do Estado – compreensão das necessidades regionais, especialmente no Bico do Papagaio, Jalapão e Sudeste.
Compromisso com resultados – foco em soluções práticas para problemas crônicos, como saúde regionalizada e infraestrutura viária.
Coerência – alinhamento entre discurso, trajetória e prática política.
Essa valorização do voto de opinião e de candidatos que “pertencem” ao estado e não apenas “circulam” por ele em ano eleitoral enfraquece o poder do endosso automático das lideranças municipais. O eleitor pode até reconhecer a estrutura oferecida por um prefeito, mas preserva para si a decisão final, guiada por critérios cada vez mais rigorosos.
A fadiga democrática e o desalento estatístico
A desconfiança do eleitor tocantinense não é apenas perceptiva; trata-se de um fenômeno estatisticamente mensurável, resultado de um ciclo prolongado de instabilidade política. Ao longo dos anos, o Tocantins vivenciou intensa judicialização da política, com sucessivas cassações, renúncias e afastamentos de governadores eleitos, gerando uma profunda “fadiga democrática”.
Os dados eleitorais históricos confirmam essa erosão da confiança. Em 2022, o percentual de “eleitores desalentados” soma de abstenções, votos nulos e brancos alcançou 35% do eleitorado total, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral, analisados pelo Instituto Methodus. Trata-se de mais de um terço dos eleitores aptos, que não se afastam por indiferença, mas por desconfiança acumulada em um sistema que, em sua percepção, não respeita plenamente o resultado das urnas.
Essa descrença é hoje o maior obstáculo para lideranças municipais que tentam transferir votos. O eleitor que se sente traído pela instabilidade institucional é o mesmo que questiona a legitimidade dos endossos políticos tradicionais. Em muitos casos, opta pela abstenção ou pelo voto de protesto, esvaziando acordos firmados entre candidatos majoritários e líderes locais.
Conclusão: o futuro da disputa
O cenário eleitoral no Tocantins aponta para uma dinâmica complexa, em que a estrutura — fornecida pelas lideranças municipais continua sendo necessária, mas a legitimidade conquistada diretamente junto ao eleitor tornou-se decisiva. As lideranças locais permanecem relevantes para organizar campanhas e garantir uma base mínima de votos, mas já não detêm o monopólio da decisão eleitoral.
O futuro das disputas majoritárias dependerá da capacidade dos candidatos de transcender acordos de cúpula e dialogar diretamente com um eleitorado crítico e desalentado. A vitória não será definida pelo barulho das alianças, mas pela consistência da trajetória política e pela habilidade de reconstruir a confiança, a estabilidade e o senso de responsabilidade pública no estado.












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