A legitimidade das emendas parlamentares para shows e a hipocrisia de Ronaldo Dimas
- Tocantins Atual

- 26 de set. de 2025
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“Nem só de pão o homem viverá” (Jesus Cristo).“A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte” (Titãs).
Essas duas frases, vindas de tempos e contextos diferentes, se encontram em um mesmo ponto: a vida não se sustenta apenas com o básico. A cultura, a arte e o lazer também alimentam o ser humano.
É fácil criticar os investimentos em shows quando se vive em um grande centro urbano e se pode pagar R$ 100, R$ 200, R$ 300 ou até R$ 1.000 por um ingresso. Mas para quem mora no interior, em cidades de dois, três ou cinco mil habitantes, a realidade é outra. Ali, a população espera ansiosamente pelo aniversário da cidade ou pela exposição agropecuária para ter a rara oportunidade de assistir de perto seus artistas preferidos.
Os prefeitos conhecem a força desses momentos. Eles vão além do entretenimento: atraem visitantes de toda a região, movimentam hotéis, restaurantes, postos de gasolina, vendedores ambulantes, motoristas de aplicativo e até pequenos negócios informais. Também reforçam a autoestima do cidadão, que se sente parte de algo maior e vê sua cidade colocada em evidência. Não por acaso, como afirma um prefeito do interior do Tocantins: “Esses eventos são aguardados durante o ano inteiro. Eles não trazem apenas lazer, mas também oportunidade de fortalecer o comércio local e valorizar a autoestima da comunidade.”
O que precisa ficar bem claro é que é preciso parar com a hipocrisia de questionar aquilo que é legal. Os deputados usam a prerrogativa constitucional de liberar emendas para a realização de eventos artísticos e culturais, como os shows. Se os prefeitos não conseguem bancar esses custos com recursos próprios, é justamente a importância dessas emendas que permite que a população tenha acesso. Tudo isso são instrumentos legais. Se não quiserem mais, que se mude a lei e se proíba a destinação de emendas parlamentares para shows. Mas enquanto for permitido, os deputados continuarão fazendo, porque a população quer, e os prefeitos pedem que eles façam isso.
Nesse contexto, causa estranheza a fala de Ronaldo Dimas, que preferiu usar da hipocrisia para criticar as emendas destinadas a shows, ignorando que elas atendem diretamente ao desejo popular e ao pedido legítimo dos prefeitos. Atacar essa prática não é combater desperdício: é negar ao povo do interior o direito de viver a cultura e o lazer que nas grandes cidades já é comum.
Quando algum gestor, de forma demagógica, grita “chega de shows!”, é preciso entender o recado escondido: não é contra a festa, é contra o povo. A mensagem transmitida é que o cidadão do interior não merece cultura, não merece lazer, não terá direito de viver um grande espetáculo — a não ser que possa pagar por ele.
E vale lembrar: quando um grande show acontece em uma cidade pequena, ele não mobiliza apenas os moradores locais. Ele reúne famílias e amigos de toda a região, gera encontros, aquece a economia — ainda que seja na venda de um espetinho e um refrigerante — e, principalmente, reforça o sentimento de pertencimento e de alegria coletiva.
Portanto, investir em shows por meio de emendas parlamentares não é gasto supérfluo. É política pública de cultura. É inclusão social. É desenvolvimento econômico. E, acima de tudo, é a valorização da vida comunitária. Porque garantir cultura ao povo não é luxo: é direito.












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